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Casal Lalio

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Sempre há dias em que bate uma tristeza, angustia e a convicção de que estamos no caminho errado. Paramos então para pensar, Porque escolhi cursar Jornalismo?

Bem, para quem não sabe o Casal Lalio é formado em Jornalismo há quase 3 anos. Durante esse período, infelizmente, não fizemos estágio, por uma série de questões burocráticas da nossa faculdade. Não podemos esquecer também do preconceito por parte das empresas, por não estudar na federal ou católica. Na nossa turma que formaram 18 alunos, somente 1 trabalha na área. Os outros estão por aí trabalhando em empregos que com certeza não era o planejado.

É uma profissão em que muitos pensam ser de glamour, fama, dinheiro. Mas infelizmente, não é assim. Como uma amiga do tuíte, Deiga Luane disse “Jornalismo é vocação. É mais ou menos como ser padre. É sacerdócio. Missão. Tem até voto de pobreza”.

Dias assim, em que vagas aparecem, mas que experiências são fundamentais, somos cobrados e aquele sonho de trabalhar como jornalista, se vai. Confesso que o desânimo é grande e a vontade de fazer outro curso cresce a cada dia. Mas como cursar outra faculdade se no coração e na mente só tem espaço para o Jornalismo?

Eis que certo pensamento surge: vamos mudar para outro lugar, cidade, estado, país. Quem sabe estamos no lugar errado, na hora errada. Mas a realidade cai no nosso colo e diz: ” Mudar como? Se aqui está difícil, em outros lugares podem estar pior”.

É no meio dessa confusão de sentimentos e tristeza em que se encontra o Casal Lalio no dia de hoje. Na verdade, é um desabafo, para quem sabe a esperança volte e o nosso sonho se renove.

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Descubro então que a faculdade é coisa séria: posso ter no máximo oito faltas numa “matéria optativa”, mas já tenho dez. Falo com o professor que, envergonhado, pede desculpas por ter feito tantas chamadas. Dispõe-se, com a máxima boa vontade a me ajudar. Meu argumento são as notas de trabalhos e provas, já fui aprovado, tenho uma das maiores médias da turma. O professor não se impressiona com o paradoxo (alguém que não esteve presente para saber, mas tem todas as provas de que sabe).

Quinto período: Reparo que depois de três anos de estudos, vários alunos adquiriram um estranho vício: ir até a faculdade e voltar. Consiste em se dirigir até a escola, ficar alguns minutos andando pelas salas e corredores, tomar um café e voltar. Dessa volta esses alunos conseguem retirar um estranho, mas inquestionável prazer. Incluo-me entre eles. Mas ainda assim estou com todo o pique, quero fazer diferente nesse período; começo o semestre freqüentando palestras, seminários e mini-cursos para ter minhas 200 horas extracurriculares; devo ter umas 70 horas, falta pouco; Outra novidade nesse período é a formação da comissão de formatura. Três cargos muito concorridos que levantam questionamentos e propaga a discussão em várias aulas no decorrer do semestre. No final das contas é decidida pela “panelinha” dos alunos “puros-sangues” da faculdade - uma maioria de oito pessoas - quem deverá representar a turma, para a desilusão dos “transferidos”.

Nesse semestre uma nova professora nos chama a atenção, também conhecida como a professora das fichinhas. A professora carrega sempre uma pasta com um pequeno arquivo de plástico cheio de fichinhas. Sua aula consiste em transcrever o que está escrito nelas para o quadro. Nenhuma pergunta fora do que está escrito nas fichinhas pode ser feita. Um dia, ela esquecerá as fichinhas em algum lugar e não poderá dar aula.
Atualmente não sonho em mudar o mundo, nem em escrever o que penso; nem desmascarar o status quo, ou o capitalismo, ou mesmo combater a desigualdade social. Aprendi que devo manter-me cerceado por uma linguagem jornalística; que não devo emitir opinião; não devo tentar ser o advogado, nem a policia, nem o juiz, nem o quarto poder; aprendi também que devo respeitar o capitalismo, a linha editorial do veículo que eu trabalhar; aprendi ao longo de três anos a abrir aspas para os outros falarem; a ouvir todos os lados de um fato em cinco minutos; a escrever com medo da “faca” do editor; e se eu não for assim serei excluído do mercado de trabalho.

Estou feliz, mesmo assim. Pensei muito no meu Trabalho de Conclusão de Curso, como estive pensando no decorrer de todo o curso. Li tudo o que podia; porém não fiz bem o que eu pretendia no início do curso. Mas no final das contas o meu saldo ficou positivo na faculdade. Hoje fiz essa análise de um produto cultural “o ensino superior privado”. Pois essa é a minha experiência, minha forma empírica de demonstrar o que foi esses quatro anos de aprendizagem. Realmente queria ter feito diferente em alguns casos e em algumas circunstancias. No entanto não fiz, aprendi que quem faz a faculdade é, de certa forma, o próprio acadêmico.



Esse texto pretende analisar o ensino superior privado, para tanto fiz uma espécie de crônica que narra superficialmente minha própria experiência, no curso de jornalismo da Faculdade X (preservarei o nome da instituição). Na era pós-industrial, pós-moderna ainda temos os velhos resquícios capitalistas do século XX. Por isso nem a academia e as universidades estão livres de oferecerem um produto cultural: o ensino superior.
Um momento perdido no tempo, o espaço é o da minha faculdade.
_ Que dia é hoje? Alguém pergunta para ninguém.
_ Nem sei, nem me lembro mais. Ouve-se uma resposta perdida também entre tantas pessoas.
Estou em outro planeta? Acabo de sair do ensino médio e caio aqui de pára-quedas na faculdade. Onde estão meus amigos, minhas festas, meus amores platônicos? Tudo parece tão diferente e confuso para mim. Meu curso é jornalismo quero mudar o mundo, escrever o que penso, desmascarar o status côo, combater a desigualdade social, o capitalismo corrompido, lutar pela liberdade de expressão, denunciar os abusos do poder, combater a corrupção..
_O que está acontecendo? Pergunto timidamente.
_ Sei lá, acho que é uma palestra. Ele me responde, mas parece que está me perguntando.
Palestra na primeira aula do semestre? Qual era o tema? Somente depois do terceiro período eu soube responder essa pergunta. Era apenas uma aula para amedrontar os calouros. Auditório lotado, todos os alunos da faculdade. Os demais períodos estavam ali só para ganhar horas complementares, como eu viria mais tarde a descobrir. Nós, alunos, entusiasmados por termos passado no vestibular, comparecemos em massa e nessa palestra somos apresentados às maravilhas do “seminário”. 
A teoria é a seguinte: o professor faz uma exposição do tema; os alunos, divididos em pequenos grupos, debatem entre si e fazem um relatório das conclusões; cada grupo fala seu relatório para a turma e terminando, o professor tira as conclusões. Dessa teoria vai nascer um excelente subproduto: a prova em grupo. O aluno que sabe, fala; o que tiver a melhor letra escreve; os demais assinam — assinaturas que podem ser conseguidas antes da prova, liberando-os para outras atividades como ler revistas, conversar, ir embora. Para o professor também é ótimo: são menos provas a corrigir. Uma turma de 40 alunos, por exemplo, pode ser facilmente reduzida a oito provas.

Segundo período: A turma se divide em “panelinhas”, descubro que sou um ET, meu texto é retalhado, minhas roupas não estão na moda e sempre sobro na formação dos grupos. Ai sempre decido fazer o trabalho sozinho é mais prático, não tenho tempo de encontrar com ninguém, moro no interior e gasto duas horas para chegar à faculdade. Ao longo do período percebo que meus colegas cochicham quando levanto um questionamento. Acho que eles querem me pegar lá fora, porque eu complico demais as aulas.

Terceiro período: passo por uma fase negra, estou desiludido com o curso, com os colegas, com a faculdade, com os professores e sobra até pra cantina. Já li “todos” os livros da biblioteca (dá para imaginar o tamanho da biblioteca), complico ainda mais as aulas. Minhas notas são altas, já não sou excluído dos grupos. A professora, às vezes, me esculacha. Não paro de conversar um minuto. Já não uso o boné para trás, nem calça de mala, tento me adequar ao modelo de beleza padrão.  
Já deixo para tirar as “xérox” nas semanas de provas. Sempre há uma fila maior que a do SUS. As “xérox” consistem em uma espécie de colcha de retalhos, vários textos de livros e autores diferentes; que separados já são confusos, unidos nem se fala. A sala está cheia. Mas já se escuta, dos que chegam atrasados, aquilo que será, ao mesmo tempo, o grito de guerra e a única preocupação real de todo o curso:
— O professor já fez a chamada?

Quarto período: Dos trinta alunos do primeiro período restam apenas uns doze. O resto trancou a matricula, desistiu, ou são os famosos turistas que aparecem misteriosamente nas semanas de trabalhos e provas. Começo a identificar minha vocação em lecionar com um professor muito “gente boa”. Ele passa um “trabalho integrado” – escolhe um tema do nada; “O jeans”, "sustentabilidade", "o ano de 1968", por exemplo, e inclui metade da nota em todas as outras matérias, ou seja, se você tirar nota ruim com ele, dança nas demais disciplinas – no fim das contas não integra nada, pois os professores empurram o trabalho um para o outro. Suas aulas são ótimas ele chega à sala põem os materiais na mesa e sempre diz:
— Boa noite, gente. Tudo bem? Como é que está o trabalho? Alguma dúvida? Nenhuma dúvida? Qualquer dúvida é só falar. [Faz uma pequena pausa, os alunos mal notam a sua presença]. Lembrem-se de que o trabalho tem que ser entregue no último dia de aula e vale todos os pontos. Nenhuma dúvida? Então, boa noite para vocês.
E se retira, ou fica contando histórias, o que dá no mesmo. Assim são suas aulas. Duram sempre menos de cinco minutos. É fácil deduzir por que poucos alunos estão presentes. Mas não são só rosas nesse período, tem uma professora que nós apelidamos de Hitler ela possui muitas qualidades de professora como exigência, perfeccionismo e crítica. E isso lá são qualidades para um professor ter? Ela nos passa trabalhos todas às aulas e ao contrário dos outros, ela não deixa entregar depois. O pior de tudo é a teoria que ela ministra, parece uma metralhadora de informação. 
Praticamente só estudo para a matéria dela, ela gosta de “ferrar” com os alunos. Ninguém gosta dela. Tentamos ate tirá-la da faculdade, ao longo do período surge uma dúvida atroz. Deve a turma continuar com um professor, ditador e que não sabe dar aula e, muito menos, a matéria? Ou ficar, oficialmente, sem aula? Um professor ruim é melhor do que nada? Ou nada é melhor do que um professor ruim? A turma discute o que fazer.
Surgem duas correntes. Uma, idealista, acha que se o professor sair, através de um abaixo-assinado, a universidade pode demorar em substituí-lo, a turma ficará sem aula vários dias e o próximo professor não terá tempo para ensinar toda a matéria. A outra, realista, acha a mesma coisa. Mas vê nisso inúmeras vantagens. No fim das contas ela não sai e deixa metade da turma de recuperação.

Se você se identificou com esse texto ele Continuará Amanhã....